Naquela
quinta de março, acordei cedo como em todas as outras quintas do ano. Porém,
estava bastante ansiosa, o que deve ter feito com que eu acordasse algumas
vezes durante aquela madrugada.
Naquela
manhã de março, eu iria encontrar com um importante jornalista paraibano, o que
pra mim é sensacional, já que sou estudante de jornalismo, e estou em uma fase
do curso em que conheço o trabalho de outras pessoas de várias áreas da
Comunicação.
Naquela
semana de março, algo acontecia no mundo, algo acontecia pra mim como cristã,
era semana santa. Para aqueles que acreditam, é uma semana dedicada à reflexão
e ao desejo de ser uma pessoa melhor.
Voltando
a falar especificamente daquela quinta, acordei às 4 da manhã, mas vi que
estava muito cedo, fui ao banheiro, bebi uma água e dormi novamente. Levantei 1
hora e 30 minutos depois, conversei com meu cachorro, enchi o pote de ração e
lavei o quintal; estava um pouco nervosa, mas tranqüila.
Comecei
a me arrumar pensando no que poderia perguntar à Gonzaga Rodrigues, um homem
tão esperto e cheio de histórias para contar, tanta coisa ele devia ter para me
ensinar...
Às
06:38 da manhã fui para o ponto de ônibus, pois 1 hora depois, deveria
encontrar-me com o resto do meu grupo. Esperei o ônibus por algum tempo, Igor
(meu namorado) estava no A101, resolvi esperar para ir com ele.
Estava
tudo tranqüilo, tudo favorável. Sentamos em frente ao banco Itaú (sem
propaganda, apenas detalhando. - risos) e conversamos sobre política, amigos,
trabalho e futuro.
Rebeca
chegou (minha parceira de estudo e delicada e loira carona daquele dia) e nos
dirigimos ao escritório do pai dela, ele que organizara todo nosso encontro com
o Gonzaga. Enquanto esperávamos algum sinal do jornalista, batemos um papo
bacana, bom homem.
Marisa,
Rebeca e eu, sentamos ao redor de uma mesa redonda e “passamos o texto”, era
nossa primeira grande entrevista.
Enquanto
trocávamos algumas informações sobre o entrevistado, o pai de Rebeca chegou com
uma cara não muito boa e como já imaginávamos, ele não tinha uma boa notícia.
Ele muito educado pediu desculpas, o jornalista não poderia vir ao nosso
encontro, teve que resolver algo ligado à capa do seu novo lançamento, nosso
encontro foi remarcado.
Ainda
era muito cedo, não passava das 9 da manhã, não queria voltar pra casa (deveria
ter voltado), então fiquei conversando mais um pouco com as meninas e depois
fui dar um alô para Igor no trabalho (tão lindo, estava no terceiro dia do seu
primeiro emprego).
Como
estava pra ganhar um dinheirinho extra, comprei um colar que já estava
desejando há algum tempo e, logo em seguida, fui para o ponto de ônibus da
Lagoa e corri para não perder o 5100.
No
caminho de volta para casa, pensei nas inúmeras coisas que tinha para fazer,
entre elas: lavar roupa. Vida difícil essa de estudante e dona de casa, eu
havia pensado em pôr as roupas na máquina de lavar antes de sair de casa, mas
um detalhe impediu meus planos, não havia mais sabão em pó.
Alguns
lugares perto da minha casa vendem sabão em pó, então isso não seria um
problema. Pedi parada pensando em ir ao mercado comprar o bendito sabão, mas
algo aconteceu, o motorista não abriu a porta, então eu pensei: “Será que devo
descer na próxima parada e comprar o sabão no outro mercado?”, pensei em vão. O
moço atrás de mim gritou loucamente “VAI DESCER, MOTORISTA!”, desci.
Atravessei
a praça e caminhei tranquilamente até o mercado, cheguei lá e comprei o bendito
sabão em pó, uma lata de refrigerante de limão e dois pacotinhos de M&M. Estava
realizada, apesar da entrevista não ter acontecido, agora eu poderia lavar
minhas roupas, beber refrigerante, comer chocolate e admirar meu novo colar.
Eu
moro bem perto do mercado, basta atravessar a principal, andar um pouco e virar
a esquerda na rua da Academia Malhação, depois de descer alguns metros, pronto,
lar doce lar!
Atravessei
tranqüila, não falei aqui, mas eu estava toda trabalhada na elegância [risos],
de camisa social, calça cintura alta e bolsinha de lado, parecia até uma pessoa
com um emprego fixo e um bom salário.
Entrei
na minha rua, ou seja, já me senti em casa, estava na minha zona de conforto. A
rua estava vazia, mas tinha uma explicação, era quinta-feira santa, início de
feriadão.
Enquanto
caminhava, pensava no que iria fazer assim que chegasse em casa, precisava
ligar pra minha mãe que estava no interior, falar que estava tudo bem e
repassar as novidades.
Estava
3 casas distante da minha, resolvi me aproximar da calçada, gosto de andar bem
no meio de minha rua. Ouvi um ruído atrás de mim, mas estava tão ansiosa para
chegar em casa que nem ao menos olhei para trás. Burrice. Deveria ter olhado.
Quando
estava muito perto da minha casa, o inesperado aconteceu, ouvi uma moto se
aproximando, e naquele momento já havia entendido tudo.
Gelei,
travei e na calçada alta encostei.
Olhei
de mansinho para a moto preta parada ao meu lado, fui levantando o olhar
lentamente enquanto ouvia uma voz com muita raiva dizer: “Ligeiro, ligeiro,
passa o celular!”, eu estava muito nervosa e sem saber o que fazer, então fiz
algo que me arrependo profundamente, eu olhei nos olhos dele.
Eu
estava ali, em choque, parada ao lado de um desconhecido, em plena quinta-feira
santa, onde eu apenas queria chegar em casa, lavar roupa e ligar para minha
mãe.
Ele
gritou mais uma vez: “É LIGEIRO, estou falando sério, passe o celular!”, e
olhando nos olhos dele, eu pedi calma. Pedido inútil, ele queria sair dali o
mais rápido possível, levando consigo muito mais do que meu celular.
Meu
celular estava no bolso da bolsa, abri o zíper lentamente enquanto olhava para todos
os lados na procura de alguém que pudesse me ajudar e renovar as minhas
esperanças de fugir da presença daquele homem.
Ele
não parava de pedir que eu me apressasse, foi quando colocou a mão na cintura,
novamente olhei nos olhos dele e vi toda ruindade do mundo. Tive que ter
pressa, tive que entregar o celular, ele não tinha pena de mim, mas eu estava
morrendo de medo dele.
Ele
se foi, levou meu celular, e eu fiquei ali parada, no lugar do ocorrido, não
conseguia me mexer, não acreditava no que tinha acontecido, não era aquilo que
eu tinha planejado pra aquela manhã, nada daquilo.
Então
pensei: Eu deveria ter voltado mais cedo, não devia ter comprado o colar, não
devia ter descido do ônibus, eu devia ter ido em outro mercado, eu não devia
ter entregue o celular... Então parei novamente e recomecei meu pensamento, a
culpa do que aconteceu não era minha, independente da situação, ele não tinha o
direito de roubar nada de mim.
E no
meio de todos os pensamentos, me dei conta de que ainda estava parada ali. Foi
quando finalmente olhei para trás e vi o maior tumulto acontecendo em frente à
academia do início da rua, eu não fui a única, ele tinha tentando assaltar mais
alguém, mas foi nos gritos no meio da rua que eu soube que ao contrário de mim,
a moça não entregou o celular.
Meus
vizinhos foram surgindo um a um, todos querendo saber o que aconteceu e
procurando motivos para justificar, “é a crise”, diziam eles.
Depois
de contar a história várias vezes, entrei em casa, no meio de uma crise de
ansiedade, chorava sem parar e batia em algumas paredes, que ódio eu sentia, os
olhos dele estavam me perseguindo, toda aquela maldade parecia ter sido passada
para mim naquelas malditas trocas de olhares.
Peguei
o telefone residencial, liguei para Igor, não atendeu, estava trabalhando.
Liguei para o meu pai, para polícia, para minha mãe, minha vó, e por último,
postei uma breve mensagem de indignação no facebook.
Os
30 segundos que passei na companhia daquele homem não saiam da minha mente
ainda não saíram. Ando pelas ruas com a sensação de que irei encontrá-lo a
qualquer momento, que mais uma vez verei aquele olhar.
Deus
me livre!
Me
livre daquele homem, daquela situação, daquela sensação, daquele barulho de
moto se aproximando, daquelas pessoas ao meu redor procurando explicar o que eu
não quero ouvir, daquela ligação para o 190 para contar os detalhes do
ocorrido, daquela garapa que eu nem tive forças pra fazer... Deus me livre de
não poder fazer nada enquanto vejo um desconhecido chegar e brincar com tudo em
mim.
João
Pessoa, março de 2016.
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