domingo, 15 de maio de 2016

Quinta-feira santa

Naquela quinta de março, acordei cedo como em todas as outras quintas do ano. Porém, estava bastante ansiosa, o que deve ter feito com que eu acordasse algumas vezes durante aquela madrugada.
Naquela manhã de março, eu iria encontrar com um importante jornalista paraibano, o que pra mim é sensacional, já que sou estudante de jornalismo, e estou em uma fase do curso em que conheço o trabalho de outras pessoas de várias áreas da Comunicação.
Naquela semana de março, algo acontecia no mundo, algo acontecia pra mim como cristã, era semana santa. Para aqueles que acreditam, é uma semana dedicada à reflexão e ao desejo de ser uma pessoa melhor.
Voltando a falar especificamente daquela quinta, acordei às 4 da manhã, mas vi que estava muito cedo, fui ao banheiro, bebi uma água e dormi novamente. Levantei 1 hora e 30 minutos depois, conversei com meu cachorro, enchi o pote de ração e lavei o quintal; estava um pouco nervosa, mas tranqüila.
Comecei a me arrumar pensando no que poderia perguntar à Gonzaga Rodrigues, um homem tão esperto e cheio de histórias para contar, tanta coisa ele devia ter para me ensinar...
Às 06:38 da manhã fui para o ponto de ônibus, pois 1 hora depois, deveria encontrar-me com o resto do meu grupo. Esperei o ônibus por algum tempo, Igor (meu namorado) estava no A101, resolvi esperar para ir com ele.
Estava tudo tranqüilo, tudo favorável. Sentamos em frente ao banco Itaú (sem propaganda, apenas detalhando. - risos) e conversamos sobre política, amigos, trabalho e futuro.
Rebeca chegou (minha parceira de estudo e delicada e loira carona daquele dia) e nos dirigimos ao escritório do pai dela, ele que organizara todo nosso encontro com o Gonzaga. Enquanto esperávamos algum sinal do jornalista, batemos um papo bacana, bom homem.
Marisa, Rebeca e eu, sentamos ao redor de uma mesa redonda e “passamos o texto”, era nossa primeira grande entrevista.
Enquanto trocávamos algumas informações sobre o entrevistado, o pai de Rebeca chegou com uma cara não muito boa e como já imaginávamos, ele não tinha uma boa notícia. Ele muito educado pediu desculpas, o jornalista não poderia vir ao nosso encontro, teve que resolver algo ligado à capa do seu novo lançamento, nosso encontro foi remarcado.
Ainda era muito cedo, não passava das 9 da manhã, não queria voltar pra casa (deveria ter voltado), então fiquei conversando mais um pouco com as meninas e depois fui dar um alô para Igor no trabalho (tão lindo, estava no terceiro dia do seu primeiro emprego).
Como estava pra ganhar um dinheirinho extra, comprei um colar que já estava desejando há algum tempo e, logo em seguida, fui para o ponto de ônibus da Lagoa e corri para não perder o 5100.
No caminho de volta para casa, pensei nas inúmeras coisas que tinha para fazer, entre elas: lavar roupa. Vida difícil essa de estudante e dona de casa, eu havia pensado em pôr as roupas na máquina de lavar antes de sair de casa, mas um detalhe impediu meus planos, não havia mais sabão em pó.
Alguns lugares perto da minha casa vendem sabão em pó, então isso não seria um problema. Pedi parada pensando em ir ao mercado comprar o bendito sabão, mas algo aconteceu, o motorista não abriu a porta, então eu pensei: “Será que devo descer na próxima parada e comprar o sabão no outro mercado?”, pensei em vão. O moço atrás de mim gritou loucamente “VAI DESCER, MOTORISTA!”, desci.
Atravessei a praça e caminhei tranquilamente até o mercado, cheguei lá e comprei o bendito sabão em pó, uma lata de refrigerante de limão e dois pacotinhos de M&M. Estava realizada, apesar da entrevista não ter acontecido, agora eu poderia lavar minhas roupas, beber refrigerante, comer chocolate e admirar meu novo colar.
Eu moro bem perto do mercado, basta atravessar a principal, andar um pouco e virar a esquerda na rua da Academia Malhação, depois de descer alguns metros, pronto, lar doce lar!
Atravessei tranqüila, não falei aqui, mas eu estava toda trabalhada na elegância [risos], de camisa social, calça cintura alta e bolsinha de lado, parecia até uma pessoa com um emprego fixo e um bom salário.
Entrei na minha rua, ou seja, já me senti em casa, estava na minha zona de conforto. A rua estava vazia, mas tinha uma explicação, era quinta-feira santa, início de feriadão.
Enquanto caminhava, pensava no que iria fazer assim que chegasse em casa, precisava ligar pra minha mãe que estava no interior, falar que estava tudo bem e repassar as novidades.
Estava 3 casas distante da minha, resolvi me aproximar da calçada, gosto de andar bem no meio de minha rua. Ouvi um ruído atrás de mim, mas estava tão ansiosa para chegar em casa que nem ao menos olhei para trás. Burrice. Deveria ter olhado.
Quando estava muito perto da minha casa, o inesperado aconteceu, ouvi uma moto se aproximando, e naquele momento já havia entendido tudo.
Gelei, travei e na calçada alta encostei.
Olhei de mansinho para a moto preta parada ao meu lado, fui levantando o olhar lentamente enquanto ouvia uma voz com muita raiva dizer: “Ligeiro, ligeiro, passa o celular!”, eu estava muito nervosa e sem saber o que fazer, então fiz algo que me arrependo profundamente, eu olhei nos olhos dele.
Eu estava ali, em choque, parada ao lado de um desconhecido, em plena quinta-feira santa, onde eu apenas queria chegar em casa, lavar roupa e ligar para minha mãe.
Ele gritou mais uma vez: “É LIGEIRO, estou falando sério, passe o celular!”, e olhando nos olhos dele, eu pedi calma. Pedido inútil, ele queria sair dali o mais rápido possível, levando consigo muito mais do que meu celular.
Meu celular estava no bolso da bolsa, abri o zíper lentamente enquanto olhava para todos os lados na procura de alguém que pudesse me ajudar e renovar as minhas esperanças de fugir da presença daquele homem.
Ele não parava de pedir que eu me apressasse, foi quando colocou a mão na cintura, novamente olhei nos olhos dele e vi toda ruindade do mundo. Tive que ter pressa, tive que entregar o celular, ele não tinha pena de mim, mas eu estava morrendo de medo dele.
Ele se foi, levou meu celular, e eu fiquei ali parada, no lugar do ocorrido, não conseguia me mexer, não acreditava no que tinha acontecido, não era aquilo que eu tinha planejado pra aquela manhã, nada daquilo.
Então pensei: Eu deveria ter voltado mais cedo, não devia ter comprado o colar, não devia ter descido do ônibus, eu devia ter ido em outro mercado, eu não devia ter entregue o celular... Então parei novamente e recomecei meu pensamento, a culpa do que aconteceu não era minha, independente da situação, ele não tinha o direito de roubar nada de mim.
E no meio de todos os pensamentos, me dei conta de que ainda estava parada ali. Foi quando finalmente olhei para trás e vi o maior tumulto acontecendo em frente à academia do início da rua, eu não fui a única, ele tinha tentando assaltar mais alguém, mas foi nos gritos no meio da rua que eu soube que ao contrário de mim, a moça não entregou o celular.
Meus vizinhos foram surgindo um a um, todos querendo saber o que aconteceu e procurando motivos para justificar, “é a crise”, diziam eles.
Depois de contar a história várias vezes, entrei em casa, no meio de uma crise de ansiedade, chorava sem parar e batia em algumas paredes, que ódio eu sentia, os olhos dele estavam me perseguindo, toda aquela maldade parecia ter sido passada para mim naquelas malditas trocas de olhares.
Peguei o telefone residencial, liguei para Igor, não atendeu, estava trabalhando. Liguei para o meu pai, para polícia, para minha mãe, minha vó, e por último, postei uma breve mensagem de indignação no facebook.
Os 30 segundos que passei na companhia daquele homem não saiam da minha mente ainda não saíram. Ando pelas ruas com a sensação de que irei encontrá-lo a qualquer momento, que mais uma vez verei aquele olhar.
Deus me livre!
Me livre daquele homem, daquela situação, daquela sensação, daquele barulho de moto se aproximando, daquelas pessoas ao meu redor procurando explicar o que eu não quero ouvir, daquela ligação para o 190 para contar os detalhes do ocorrido, daquela garapa que eu nem tive forças pra fazer... Deus me livre de não poder fazer nada enquanto vejo um desconhecido chegar e brincar com tudo em mim.



João Pessoa, março de 2016.

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