sábado, 30 de julho de 2016

O centro

Diariamente, milhares de pessoas caminham pelas ruas do centro de João Pessoa, algumas apenas de passagem, enquanto outras escolheram ali fazer morada. Aliás, essa questão é meio incerta, é difícil saber se elas escolheram o centro ou se o centro as escolheu.
O Centro é o tipo de bairro que reúne comércio, área verde, praças, shoppings e inúmeras histórias para contar. A propósito, se deseja conhecer algumas dessas histórias, basta caminhar um pouco e sentar-se em um dos bancos do Ponto de Cem Réis, bancos que, por sinal, acolhem durante a noite aqueles que o destino não acolheu, se desejar, lhes deseje um bom dia e fique por ali mesmo a conversar.
Ainda caminhando pelo Ponto de Cem Réis, posso olhar ao meu redor e ver vestígios de uma crise, não sei se financeira ou emocional, o silêncio das lojas fechadas se mistura ao barulho das grandes cidades, e acaba passando despercebido.
Um pouco mais perto do novo Parque da Lagoa, vejo jovens ainda com jeito de aprendiz, esforçando-se em seu primeiro emprego, um pouco receosos de que o silêncio que atingiu outros empreendimentos chegue ao seu local de trabalho. 
Alguns senhores e senhoras gostam de passar suas tardes no centro, relembrando os tempos que se passaram, alimentando os pombos, conversando com amigos ou simplesmente observando o tempo passar. Nos fins de tarde, eles visitam as antigas igrejas para fazer suas preces, espero que em suas or[ações] lembrem daqueles que estavam em seu caminho, dos que estavam dormindo nos bancos do Ponto de Cem Réis, dos que lhe pediram um pedaço de pão e, principalmente, daqueles que tanto precisam de atenção.

O Centro é isso, é correria, riqueza, pobreza, histórias, gente, sonhos... Para alguns passagem, para outros morada, para a cidade é coração. 

domingo, 15 de maio de 2016

A praça

Lembro-me de quando essa praça nem era praça, era penas barro, mato, uns bancos de cimentos, dois pés de castanhola e algumas flores de defunto que floresciam após as chuvas.
De vez em quando minha mãe me levava para brincar, mas era quase sempre sem graça, eu ainda era muito pequena e ela não me deixava sentir o chão, sentia bastante inveja das crianças que podiam correr na lama sem se preocupar se viriam a adoecer ou ficar de castigo. Porém, no ano de 2002, o jogo virou, virou literalmente, estava acontecendo a copa do mundo, grande evento para os brasileiros apaixonados por futebol (claro que o 7x1 da copa passada abalou um pouco essa paixão), pois bem, minha família se reuniu na minha casa para assistir aos jogos, e a minha casa fica onde? Em frente à praça! Agora imagina só, os primos reunidos, aquela chuvinha boa caindo, tempo de copa do mundo... Corremos para a praça que estava um lamaçal só!
Se eu fechar os olhos e me concentrar, ainda posso sentir o barro por entre meus dedos dos pés, e olha que já se passaram 14 anos. Foi naquele dia de junho, que finalmente conheci verdadeiramente a praça e tudo que ela podia me oferecer: lama, guerra de castanholas e muitas risadas.
Ainda naquele ano, aprendi algo que marcaria a minha vida, não começou na praça, mas ela seria meu auxilio nessa aprendizagem. Pela primeira vez, meu pai e meu avô arrancaram as rodinhas, e eu, a menina magrinha, consegui andar de bicicleta [até parece que foi rápido assim]. Detalhes a parte, como é bom andar de bicicleta na praça!
Peguei a bicicleta velha, isso mesmo, velha. Pegaram a bike velha do meu irmão, pintaram de rosa, e pronto, deixaram uma criança feliz.  Mas enfim, peguei minha bicicletinha rosa segurando-a de um lado e minha mãe do outro, atravessamos a rua e notamos que algo incrível estava acontecendo, a praça estava sendo reformada.
Quanto tempo ficaríamos sem viver as aventuras da praça? Como ela ficaria? Ainda existiria um campo?
Tantas perguntas perturbavam meu coração de menina.
Afinal, quem nunca sonhou em namorar na praça?
[Muitas pessoas, eu sei.]
Todos os dias, sentávamos na calçada para observar como ia a reforma. Tijolo vai, tijolo vem, concreto, areia, semente... Meu Deus, como o nosso Central Park ficaria?
O dia chegou, a praça havia ganhado nova forma, era cheia de altos e baixos, tinha um campo de areia maravilhoso, não era barro, era areia mesmo, sabe a da praia?
E pra quem gosta de andar de bicicleta, a coisa tava bem séria, tinha uma passarela que passava no meio e ao redor da praça, algo tipo acima do nível do mar, muito louco, não via a hora de ver todo mundo ali andando de bicicleta.
Pras senhoras conversadeiras, tinha algo muito mais legal que bancos, dava pra sentar nessas passarelas e ficar com as pernas penduradas, tocando na terra. Muito legal!
A praça ficou assim por uns 6 anos ou mais, foi lá que ouvi minha primeira cantada, fiquei em choque, um rapaz disse algo sobre a minha bunda, e eu só tinha 11 anos, fiquei com muita vergonha e fui pra casa, minha fase de ciclista acabou ali, vendi a bike vermelha.
Com o tempo, a praça passou por mais uma reforma. O campo de areia virou quadra e os espaços entre as passarelas foram aterrados, ficou tudo no mesmo nível. Uns banquinhos de concreto, gangorras e escorregos foram colocados, ficou uma boniteza só!
A nova pracinha vivia lotada, nunca ouvi tantos agradecimentos ao prefeito, “obra maravilhosa, o bairro estava precisando”, diziam os moradores.
Nessa época da inauguração, eu não estudava perto de casa, então tinha poucos amigos no bairro, ou seja, quem seria minha companhia naquela praça?
Eu não via a hora de sentar naqueles bancos, mesmo que fosse pra observar o movimento, conhecer gente nova, eu queria mesmo era viver novamente aquela emoção de 2002, conhecer verdadeiramente a praça, pela segunda, terceira... Várias vezes.
Finalmente fiz algumas amizades no bairro, aí a coisa ficou interessante, sempre que dava, íamos à praça. Um senhor magrinho lá da estrada de Gramame, vendia uns pastéis por apenas 25 centavos, era nossa alegria, às vezes, dava pra juntar as moedas do troco e rachar uma lata de refrigerante.
As horas passam rápido demais quando se está na praça. Sentávamos ao redor das mesas próprias para jogar xadrez e ficávamos horas conversando, os assuntos eram os mais diversos, mas quase sempre coisa besta de adolescente.
Alguns anos depois, passei a estudar no turno da tarde, e aos poucos, fui perdendo o contato com a praça. As conversas nos bancos eram bem mais curtas e algumas vezes nem aconteciam, de vez em quando, umas amigas chegavam lá em casa no fim de semana e nós íamos jogar bola na praça.
Aos poucos, a praça foi perdendo seu brilho, roubaram os balanços, e os equipamentos de ginástica prometidos, nunca chegaram. Já faz um tempo que nenhuma reforma acontece, as traves da quadra quebraram há uns 5 anos, e as partidas de futsal agora são improvisadas, ainda acontecem, mas com menos freqüência, quem nunca fez travinha com os chinelos só pra não perder a chance de jogar com os amigos.
Antes, era possível fazer amigos na praça, mas hoje não é tão fácil assim, agora, as pessoas não confiam umas nas outras, se cruzam rapidamente e dificilmente sorriem, parece estarem sempre assustadas. Também, com tantos assaltos e até mortes que acontecem na praça.
A praça já teve grama, onde era possível deitar e rolar. Hoje, no meio tem barro onde vez ou outra um morador estaciona seu carro (sim, ele estaciona no meio da praça), e nos outros lugares tem mato, que uma vez ao ano a empresa responsável aparece pra limpar.
O dominó e o xadrez estão cada vez mais difícil de se jogar, as regras desses jogos não mudaram, mas com mesa virada e quebrada, quem vai conseguir jogar?
As velhinhas mal conseguem caminhar ali, é muito mato e buraco, isso é um desafio e tanto pra quem já caminha há mais de 60 anos.
Pelo menos os bancos restaram, ainda dá pra conversar, de vez em quando mainha chama uma vizinha pra sentar lá e bater um papo no fim da tarde, o problema é que o povo tem medo dos malandros que de repente aparecem pra assaltar.
As crianças mais novas da rua nunca nem viram o escorrego e o balanço funcionando, mas só de ter um lugar para correr livremente, a alegria ganha forma no rostinho de cada uma.
Hoje em dia pra mim, infelizmente a praça vem se tornando apenas um ponto de referência para encontrar a minha casa ou a da dona Zefinha. O tempo passou e eu fiquei sem tempo para passar lá, ouvir e imaginar as histórias das pessoas que ali passam, jogar dominó, e quem sabe até voltar a andar de bicicleta.


João Pessoa, abril de 2016.

Quinta-feira santa

Naquela quinta de março, acordei cedo como em todas as outras quintas do ano. Porém, estava bastante ansiosa, o que deve ter feito com que eu acordasse algumas vezes durante aquela madrugada.
Naquela manhã de março, eu iria encontrar com um importante jornalista paraibano, o que pra mim é sensacional, já que sou estudante de jornalismo, e estou em uma fase do curso em que conheço o trabalho de outras pessoas de várias áreas da Comunicação.
Naquela semana de março, algo acontecia no mundo, algo acontecia pra mim como cristã, era semana santa. Para aqueles que acreditam, é uma semana dedicada à reflexão e ao desejo de ser uma pessoa melhor.
Voltando a falar especificamente daquela quinta, acordei às 4 da manhã, mas vi que estava muito cedo, fui ao banheiro, bebi uma água e dormi novamente. Levantei 1 hora e 30 minutos depois, conversei com meu cachorro, enchi o pote de ração e lavei o quintal; estava um pouco nervosa, mas tranqüila.
Comecei a me arrumar pensando no que poderia perguntar à Gonzaga Rodrigues, um homem tão esperto e cheio de histórias para contar, tanta coisa ele devia ter para me ensinar...
Às 06:38 da manhã fui para o ponto de ônibus, pois 1 hora depois, deveria encontrar-me com o resto do meu grupo. Esperei o ônibus por algum tempo, Igor (meu namorado) estava no A101, resolvi esperar para ir com ele.
Estava tudo tranqüilo, tudo favorável. Sentamos em frente ao banco Itaú (sem propaganda, apenas detalhando. - risos) e conversamos sobre política, amigos, trabalho e futuro.
Rebeca chegou (minha parceira de estudo e delicada e loira carona daquele dia) e nos dirigimos ao escritório do pai dela, ele que organizara todo nosso encontro com o Gonzaga. Enquanto esperávamos algum sinal do jornalista, batemos um papo bacana, bom homem.
Marisa, Rebeca e eu, sentamos ao redor de uma mesa redonda e “passamos o texto”, era nossa primeira grande entrevista.
Enquanto trocávamos algumas informações sobre o entrevistado, o pai de Rebeca chegou com uma cara não muito boa e como já imaginávamos, ele não tinha uma boa notícia. Ele muito educado pediu desculpas, o jornalista não poderia vir ao nosso encontro, teve que resolver algo ligado à capa do seu novo lançamento, nosso encontro foi remarcado.
Ainda era muito cedo, não passava das 9 da manhã, não queria voltar pra casa (deveria ter voltado), então fiquei conversando mais um pouco com as meninas e depois fui dar um alô para Igor no trabalho (tão lindo, estava no terceiro dia do seu primeiro emprego).
Como estava pra ganhar um dinheirinho extra, comprei um colar que já estava desejando há algum tempo e, logo em seguida, fui para o ponto de ônibus da Lagoa e corri para não perder o 5100.
No caminho de volta para casa, pensei nas inúmeras coisas que tinha para fazer, entre elas: lavar roupa. Vida difícil essa de estudante e dona de casa, eu havia pensado em pôr as roupas na máquina de lavar antes de sair de casa, mas um detalhe impediu meus planos, não havia mais sabão em pó.
Alguns lugares perto da minha casa vendem sabão em pó, então isso não seria um problema. Pedi parada pensando em ir ao mercado comprar o bendito sabão, mas algo aconteceu, o motorista não abriu a porta, então eu pensei: “Será que devo descer na próxima parada e comprar o sabão no outro mercado?”, pensei em vão. O moço atrás de mim gritou loucamente “VAI DESCER, MOTORISTA!”, desci.
Atravessei a praça e caminhei tranquilamente até o mercado, cheguei lá e comprei o bendito sabão em pó, uma lata de refrigerante de limão e dois pacotinhos de M&M. Estava realizada, apesar da entrevista não ter acontecido, agora eu poderia lavar minhas roupas, beber refrigerante, comer chocolate e admirar meu novo colar.
Eu moro bem perto do mercado, basta atravessar a principal, andar um pouco e virar a esquerda na rua da Academia Malhação, depois de descer alguns metros, pronto, lar doce lar!
Atravessei tranqüila, não falei aqui, mas eu estava toda trabalhada na elegância [risos], de camisa social, calça cintura alta e bolsinha de lado, parecia até uma pessoa com um emprego fixo e um bom salário.
Entrei na minha rua, ou seja, já me senti em casa, estava na minha zona de conforto. A rua estava vazia, mas tinha uma explicação, era quinta-feira santa, início de feriadão.
Enquanto caminhava, pensava no que iria fazer assim que chegasse em casa, precisava ligar pra minha mãe que estava no interior, falar que estava tudo bem e repassar as novidades.
Estava 3 casas distante da minha, resolvi me aproximar da calçada, gosto de andar bem no meio de minha rua. Ouvi um ruído atrás de mim, mas estava tão ansiosa para chegar em casa que nem ao menos olhei para trás. Burrice. Deveria ter olhado.
Quando estava muito perto da minha casa, o inesperado aconteceu, ouvi uma moto se aproximando, e naquele momento já havia entendido tudo.
Gelei, travei e na calçada alta encostei.
Olhei de mansinho para a moto preta parada ao meu lado, fui levantando o olhar lentamente enquanto ouvia uma voz com muita raiva dizer: “Ligeiro, ligeiro, passa o celular!”, eu estava muito nervosa e sem saber o que fazer, então fiz algo que me arrependo profundamente, eu olhei nos olhos dele.
Eu estava ali, em choque, parada ao lado de um desconhecido, em plena quinta-feira santa, onde eu apenas queria chegar em casa, lavar roupa e ligar para minha mãe.
Ele gritou mais uma vez: “É LIGEIRO, estou falando sério, passe o celular!”, e olhando nos olhos dele, eu pedi calma. Pedido inútil, ele queria sair dali o mais rápido possível, levando consigo muito mais do que meu celular.
Meu celular estava no bolso da bolsa, abri o zíper lentamente enquanto olhava para todos os lados na procura de alguém que pudesse me ajudar e renovar as minhas esperanças de fugir da presença daquele homem.
Ele não parava de pedir que eu me apressasse, foi quando colocou a mão na cintura, novamente olhei nos olhos dele e vi toda ruindade do mundo. Tive que ter pressa, tive que entregar o celular, ele não tinha pena de mim, mas eu estava morrendo de medo dele.
Ele se foi, levou meu celular, e eu fiquei ali parada, no lugar do ocorrido, não conseguia me mexer, não acreditava no que tinha acontecido, não era aquilo que eu tinha planejado pra aquela manhã, nada daquilo.
Então pensei: Eu deveria ter voltado mais cedo, não devia ter comprado o colar, não devia ter descido do ônibus, eu devia ter ido em outro mercado, eu não devia ter entregue o celular... Então parei novamente e recomecei meu pensamento, a culpa do que aconteceu não era minha, independente da situação, ele não tinha o direito de roubar nada de mim.
E no meio de todos os pensamentos, me dei conta de que ainda estava parada ali. Foi quando finalmente olhei para trás e vi o maior tumulto acontecendo em frente à academia do início da rua, eu não fui a única, ele tinha tentando assaltar mais alguém, mas foi nos gritos no meio da rua que eu soube que ao contrário de mim, a moça não entregou o celular.
Meus vizinhos foram surgindo um a um, todos querendo saber o que aconteceu e procurando motivos para justificar, “é a crise”, diziam eles.
Depois de contar a história várias vezes, entrei em casa, no meio de uma crise de ansiedade, chorava sem parar e batia em algumas paredes, que ódio eu sentia, os olhos dele estavam me perseguindo, toda aquela maldade parecia ter sido passada para mim naquelas malditas trocas de olhares.
Peguei o telefone residencial, liguei para Igor, não atendeu, estava trabalhando. Liguei para o meu pai, para polícia, para minha mãe, minha vó, e por último, postei uma breve mensagem de indignação no facebook.
Os 30 segundos que passei na companhia daquele homem não saiam da minha mente ainda não saíram. Ando pelas ruas com a sensação de que irei encontrá-lo a qualquer momento, que mais uma vez verei aquele olhar.
Deus me livre!
Me livre daquele homem, daquela situação, daquela sensação, daquele barulho de moto se aproximando, daquelas pessoas ao meu redor procurando explicar o que eu não quero ouvir, daquela ligação para o 190 para contar os detalhes do ocorrido, daquela garapa que eu nem tive forças pra fazer... Deus me livre de não poder fazer nada enquanto vejo um desconhecido chegar e brincar com tudo em mim.



João Pessoa, março de 2016.