Lembro-me
de quando essa praça nem era praça, era penas barro, mato, uns bancos de
cimentos, dois pés de castanhola e algumas flores de defunto que floresciam
após as chuvas.
De
vez em quando minha mãe me levava para brincar, mas era quase sempre sem graça,
eu ainda era muito pequena e ela não me deixava sentir o chão, sentia bastante
inveja das crianças que podiam correr na lama sem se preocupar se viriam a
adoecer ou ficar de castigo. Porém, no ano de 2002, o jogo virou, virou
literalmente, estava acontecendo a copa do mundo, grande evento para os
brasileiros apaixonados por futebol (claro que o 7x1 da copa passada abalou um
pouco essa paixão), pois bem, minha família se reuniu na minha casa para
assistir aos jogos, e a minha casa fica onde? Em frente à praça! Agora imagina
só, os primos reunidos, aquela chuvinha boa caindo, tempo de copa do mundo...
Corremos para a praça que estava um lamaçal só!
Se
eu fechar os olhos e me concentrar, ainda posso sentir o barro por entre meus
dedos dos pés, e olha que já se passaram 14 anos. Foi naquele dia de junho, que
finalmente conheci verdadeiramente a praça e tudo que ela podia me oferecer:
lama, guerra de castanholas e muitas risadas.
Ainda
naquele ano, aprendi algo que marcaria a minha vida, não começou na praça, mas
ela seria meu auxilio nessa aprendizagem. Pela primeira vez, meu pai e meu avô
arrancaram as rodinhas, e eu, a menina magrinha, consegui andar de bicicleta
[até parece que foi rápido assim]. Detalhes a parte, como é bom andar de
bicicleta na praça!
Peguei
a bicicleta velha, isso mesmo, velha. Pegaram a bike velha do meu irmão,
pintaram de rosa, e pronto, deixaram uma criança feliz. Mas enfim, peguei minha bicicletinha rosa segurando-a
de um lado e minha mãe do outro, atravessamos a rua e notamos que algo incrível
estava acontecendo, a praça estava sendo reformada.
Quanto
tempo ficaríamos sem viver as aventuras da praça? Como ela ficaria? Ainda
existiria um campo?
Tantas
perguntas perturbavam meu coração de menina.
Afinal,
quem nunca sonhou em namorar na praça?
[Muitas
pessoas, eu sei.]
Todos
os dias, sentávamos na calçada para observar como ia a reforma. Tijolo vai,
tijolo vem, concreto, areia, semente... Meu Deus, como o nosso Central Park
ficaria?
O
dia chegou, a praça havia ganhado nova forma, era cheia de altos e baixos,
tinha um campo de areia maravilhoso, não era barro, era areia mesmo, sabe a da
praia?
E
pra quem gosta de andar de bicicleta, a coisa tava bem séria, tinha uma
passarela que passava no meio e ao redor da praça, algo tipo acima do nível do
mar, muito louco, não via a hora de ver todo mundo ali andando de bicicleta.
Pras
senhoras conversadeiras, tinha algo muito mais legal que bancos, dava pra
sentar nessas passarelas e ficar com as pernas penduradas, tocando na terra.
Muito legal!
A
praça ficou assim por uns 6 anos ou mais, foi lá que ouvi minha primeira
cantada, fiquei em choque, um rapaz disse algo sobre a minha bunda, e eu só
tinha 11 anos, fiquei com muita vergonha e fui pra casa, minha fase de ciclista
acabou ali, vendi a bike vermelha.
Com
o tempo, a praça passou por mais uma reforma. O campo de areia virou quadra e
os espaços entre as passarelas foram aterrados, ficou tudo no mesmo nível. Uns
banquinhos de concreto, gangorras e escorregos foram colocados, ficou uma
boniteza só!
A
nova pracinha vivia lotada, nunca ouvi tantos agradecimentos ao prefeito, “obra
maravilhosa, o bairro estava precisando”, diziam os moradores.
Nessa
época da inauguração, eu não estudava perto de casa, então tinha poucos amigos
no bairro, ou seja, quem seria minha companhia naquela praça?
Eu
não via a hora de sentar naqueles bancos, mesmo que fosse pra observar o
movimento, conhecer gente nova, eu queria mesmo era viver novamente aquela
emoção de 2002, conhecer verdadeiramente a praça, pela segunda, terceira...
Várias vezes.
Finalmente
fiz algumas amizades no bairro, aí a coisa ficou interessante, sempre que dava,
íamos à praça. Um senhor magrinho lá da estrada de Gramame, vendia uns pastéis
por apenas 25 centavos, era nossa alegria, às vezes, dava pra juntar as moedas
do troco e rachar uma lata de refrigerante.
As
horas passam rápido demais quando se está na praça. Sentávamos ao redor das mesas
próprias para jogar xadrez e ficávamos horas conversando, os assuntos eram os
mais diversos, mas quase sempre coisa besta de adolescente.
Alguns
anos depois, passei a estudar no turno da tarde, e aos poucos, fui perdendo o
contato com a praça. As conversas nos bancos eram bem mais curtas e algumas
vezes nem aconteciam, de vez em quando, umas amigas chegavam lá em casa no fim
de semana e nós íamos jogar bola na praça.
Aos
poucos, a praça foi perdendo seu brilho, roubaram os balanços, e os equipamentos
de ginástica prometidos, nunca chegaram. Já faz um tempo que nenhuma reforma
acontece, as traves da quadra quebraram há uns 5 anos, e as partidas de futsal
agora são improvisadas, ainda acontecem, mas com menos freqüência, quem nunca
fez travinha com os chinelos só pra não perder a chance de jogar com os amigos.
Antes,
era possível fazer amigos na praça, mas hoje não é tão fácil assim, agora, as
pessoas não confiam umas nas outras, se cruzam rapidamente e dificilmente
sorriem, parece estarem sempre assustadas. Também, com tantos assaltos e até
mortes que acontecem na praça.
A
praça já teve grama, onde era possível deitar e rolar. Hoje, no meio tem barro
onde vez ou outra um morador estaciona seu carro (sim, ele estaciona no meio da
praça), e nos outros lugares tem mato, que uma vez ao ano a empresa responsável
aparece pra limpar.
O
dominó e o xadrez estão cada vez mais difícil de se jogar, as regras desses
jogos não mudaram, mas com mesa virada e quebrada, quem vai conseguir jogar?
As
velhinhas mal conseguem caminhar ali, é muito mato e buraco, isso é um desafio
e tanto pra quem já caminha há mais de 60 anos.
Pelo
menos os bancos restaram, ainda dá pra conversar, de vez em quando mainha chama
uma vizinha pra sentar lá e bater um papo no fim da tarde, o problema é que o
povo tem medo dos malandros que de repente aparecem pra assaltar.
As
crianças mais novas da rua nunca nem viram o escorrego e o balanço funcionando,
mas só de ter um lugar para correr livremente, a alegria ganha forma no
rostinho de cada uma.
Hoje
em dia pra mim, infelizmente a praça vem se tornando apenas um ponto de
referência para encontrar a minha casa ou a da dona Zefinha. O tempo passou e
eu fiquei sem tempo para passar lá, ouvir e imaginar as histórias das pessoas
que ali passam, jogar dominó, e quem sabe até voltar a andar de bicicleta.
João Pessoa, abril de 2016.
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