domingo, 15 de maio de 2016

A praça

Lembro-me de quando essa praça nem era praça, era penas barro, mato, uns bancos de cimentos, dois pés de castanhola e algumas flores de defunto que floresciam após as chuvas.
De vez em quando minha mãe me levava para brincar, mas era quase sempre sem graça, eu ainda era muito pequena e ela não me deixava sentir o chão, sentia bastante inveja das crianças que podiam correr na lama sem se preocupar se viriam a adoecer ou ficar de castigo. Porém, no ano de 2002, o jogo virou, virou literalmente, estava acontecendo a copa do mundo, grande evento para os brasileiros apaixonados por futebol (claro que o 7x1 da copa passada abalou um pouco essa paixão), pois bem, minha família se reuniu na minha casa para assistir aos jogos, e a minha casa fica onde? Em frente à praça! Agora imagina só, os primos reunidos, aquela chuvinha boa caindo, tempo de copa do mundo... Corremos para a praça que estava um lamaçal só!
Se eu fechar os olhos e me concentrar, ainda posso sentir o barro por entre meus dedos dos pés, e olha que já se passaram 14 anos. Foi naquele dia de junho, que finalmente conheci verdadeiramente a praça e tudo que ela podia me oferecer: lama, guerra de castanholas e muitas risadas.
Ainda naquele ano, aprendi algo que marcaria a minha vida, não começou na praça, mas ela seria meu auxilio nessa aprendizagem. Pela primeira vez, meu pai e meu avô arrancaram as rodinhas, e eu, a menina magrinha, consegui andar de bicicleta [até parece que foi rápido assim]. Detalhes a parte, como é bom andar de bicicleta na praça!
Peguei a bicicleta velha, isso mesmo, velha. Pegaram a bike velha do meu irmão, pintaram de rosa, e pronto, deixaram uma criança feliz.  Mas enfim, peguei minha bicicletinha rosa segurando-a de um lado e minha mãe do outro, atravessamos a rua e notamos que algo incrível estava acontecendo, a praça estava sendo reformada.
Quanto tempo ficaríamos sem viver as aventuras da praça? Como ela ficaria? Ainda existiria um campo?
Tantas perguntas perturbavam meu coração de menina.
Afinal, quem nunca sonhou em namorar na praça?
[Muitas pessoas, eu sei.]
Todos os dias, sentávamos na calçada para observar como ia a reforma. Tijolo vai, tijolo vem, concreto, areia, semente... Meu Deus, como o nosso Central Park ficaria?
O dia chegou, a praça havia ganhado nova forma, era cheia de altos e baixos, tinha um campo de areia maravilhoso, não era barro, era areia mesmo, sabe a da praia?
E pra quem gosta de andar de bicicleta, a coisa tava bem séria, tinha uma passarela que passava no meio e ao redor da praça, algo tipo acima do nível do mar, muito louco, não via a hora de ver todo mundo ali andando de bicicleta.
Pras senhoras conversadeiras, tinha algo muito mais legal que bancos, dava pra sentar nessas passarelas e ficar com as pernas penduradas, tocando na terra. Muito legal!
A praça ficou assim por uns 6 anos ou mais, foi lá que ouvi minha primeira cantada, fiquei em choque, um rapaz disse algo sobre a minha bunda, e eu só tinha 11 anos, fiquei com muita vergonha e fui pra casa, minha fase de ciclista acabou ali, vendi a bike vermelha.
Com o tempo, a praça passou por mais uma reforma. O campo de areia virou quadra e os espaços entre as passarelas foram aterrados, ficou tudo no mesmo nível. Uns banquinhos de concreto, gangorras e escorregos foram colocados, ficou uma boniteza só!
A nova pracinha vivia lotada, nunca ouvi tantos agradecimentos ao prefeito, “obra maravilhosa, o bairro estava precisando”, diziam os moradores.
Nessa época da inauguração, eu não estudava perto de casa, então tinha poucos amigos no bairro, ou seja, quem seria minha companhia naquela praça?
Eu não via a hora de sentar naqueles bancos, mesmo que fosse pra observar o movimento, conhecer gente nova, eu queria mesmo era viver novamente aquela emoção de 2002, conhecer verdadeiramente a praça, pela segunda, terceira... Várias vezes.
Finalmente fiz algumas amizades no bairro, aí a coisa ficou interessante, sempre que dava, íamos à praça. Um senhor magrinho lá da estrada de Gramame, vendia uns pastéis por apenas 25 centavos, era nossa alegria, às vezes, dava pra juntar as moedas do troco e rachar uma lata de refrigerante.
As horas passam rápido demais quando se está na praça. Sentávamos ao redor das mesas próprias para jogar xadrez e ficávamos horas conversando, os assuntos eram os mais diversos, mas quase sempre coisa besta de adolescente.
Alguns anos depois, passei a estudar no turno da tarde, e aos poucos, fui perdendo o contato com a praça. As conversas nos bancos eram bem mais curtas e algumas vezes nem aconteciam, de vez em quando, umas amigas chegavam lá em casa no fim de semana e nós íamos jogar bola na praça.
Aos poucos, a praça foi perdendo seu brilho, roubaram os balanços, e os equipamentos de ginástica prometidos, nunca chegaram. Já faz um tempo que nenhuma reforma acontece, as traves da quadra quebraram há uns 5 anos, e as partidas de futsal agora são improvisadas, ainda acontecem, mas com menos freqüência, quem nunca fez travinha com os chinelos só pra não perder a chance de jogar com os amigos.
Antes, era possível fazer amigos na praça, mas hoje não é tão fácil assim, agora, as pessoas não confiam umas nas outras, se cruzam rapidamente e dificilmente sorriem, parece estarem sempre assustadas. Também, com tantos assaltos e até mortes que acontecem na praça.
A praça já teve grama, onde era possível deitar e rolar. Hoje, no meio tem barro onde vez ou outra um morador estaciona seu carro (sim, ele estaciona no meio da praça), e nos outros lugares tem mato, que uma vez ao ano a empresa responsável aparece pra limpar.
O dominó e o xadrez estão cada vez mais difícil de se jogar, as regras desses jogos não mudaram, mas com mesa virada e quebrada, quem vai conseguir jogar?
As velhinhas mal conseguem caminhar ali, é muito mato e buraco, isso é um desafio e tanto pra quem já caminha há mais de 60 anos.
Pelo menos os bancos restaram, ainda dá pra conversar, de vez em quando mainha chama uma vizinha pra sentar lá e bater um papo no fim da tarde, o problema é que o povo tem medo dos malandros que de repente aparecem pra assaltar.
As crianças mais novas da rua nunca nem viram o escorrego e o balanço funcionando, mas só de ter um lugar para correr livremente, a alegria ganha forma no rostinho de cada uma.
Hoje em dia pra mim, infelizmente a praça vem se tornando apenas um ponto de referência para encontrar a minha casa ou a da dona Zefinha. O tempo passou e eu fiquei sem tempo para passar lá, ouvir e imaginar as histórias das pessoas que ali passam, jogar dominó, e quem sabe até voltar a andar de bicicleta.


João Pessoa, abril de 2016.

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